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BRADO REVOLTADO

o meu peito guarda um brado revoltado

o meu peito guarda
um brado revoltado
pelos que morreram
nas batalhas trabalhistas
ou nos covis da repressão,
são homens em camisas de mangas,
e mulheres com desbotados vestidos;
e você ainda riem?
vocês, burgueses famintos,
que comem o pão
dessas mãos suadas,
ainda riem?
vocês, omissos nojentos,
que bebem o sangue
desses corpos mutilados,
ainda riem?
sim, vocês riem;
enquanto gordos assassinos
se escondem
por trás das cortinas do poder,
erguem as vozes com estranho cinismo
à condecorada guarda:
protejam a nossa pátria: brasil.



ALVORECER

canto de glória, canto de dor

ao alvorecer,
cantarei um canto de glória
ao meu amor que nasce...
beberei a poesia como cachaça;
cegar-me-ei ao sofrimento alheio
e me encerrarei no corpo amado.


ao anoitecer,
cantarei um canto fúnebre,
ao meu amor que parte...
derramarei lágrimas de amor traído,
viverei para ver a dor.
tomarei pílulas então para dormir.

AQUELA MÚSICA



A LIBERDADE

a liberdade nasce de dentro pra fora de quem vive

a liberdade
não é negra e não é branca;
é incolor;
não tem credo,
não grana,
não precisa ter massa;
gera por si só;
a liberdade
não tem nome nem apelido;
não está longe nem perto;
ela está ou não;
a liberdade
não nasce nem morre,
ela apenas vive e habita;
a liberdade de nada precisa;
nada além da luz
que emana de dentro
pra fora de quem vive.



CANTO DE ADEUS

canto de despedida

hoje sou cego
ao corpo teu que parte...
não pareço-me ontem,
ansiedade louca de beijar teus seios,
de tocar teus pêlos,
tão louco fui;
cheio de pensamentos breves;
tão louco fui,
louco e feliz;
da minha alma
sempre um sorriso longo à tua;
hoje, porém,
teu corpo parte
e minha alma é cega;
não sou feliz nem triste;
bêbo agora
à glória de não ser escravo.



NÃO MACHUQUE A QUEM TE DEU A MÃO

não machuque a quem te deu a mão

não machuque
a quem te deu a mão,
porque bem sei, outras mãos virão,
mas o calor que a tua ora ostenta
não foi o fogo da lareira que te deu,
vai atrás, alma bendita que saberás,
o calor de tua mão é o do primeiro coração.

não machuque
a quem te fez sorrir,
porque passa o dia e passa a noite,
passa o ator e o palhaço,
que teu sorriso seja sempre alma presente,
mas, contudo, ser vivente,
teu sorriso não tem cor permanente.

não machuque
a quem te proporcionou um orgasmo,
porque mesmo que o tempo mude
ainda te restará um sêmen
que não aceitará outro colo,
e com a volta dos ventos
o induzirá ao prazer primeiro.