Adversidades
No parque, as crianças riam;
No lixo, a criança morria;
Na cama, os amantes transavam;
No chão, a amante sangrava;
No céu, o sol luzia;
No beco, a sombra escondia;
O estupro da virgem;
O sangue do cão;
O corpo do moço;
O sábado era dia;
O domingo era noite;
A felicidade era criança;
A dor, um velho coxo;
Magias vistas a olho nu;
Tantos deuses e tantos demônios
De tão grandes vaidades,
Por que razões insanas
Puseram no mundo
Tantas adversidades.
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Alvorecer
ao alvorecer,
cantarei um canto de glória
ao meu amor que nasce…
beberei a poesia como cachaça;
cegar-me-ei ao sofrimento alheio
e me encerrarei no corpo amado.
ao anoitecer,
cantarei um canto fúnebre,
ao meu amor que parte…
derramarei lágrimas de amor traído,
viverei para ver a dor.
tomarei pílulas então para dormir.
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Aquela Música
eu hei de ouvir ainda,
uma canção daquelas
que me deixava mudo,
serei de tudo
que precisarei ser,
pra seguí-la no canto,
farei de tudo
pra que também
alguém cante,
alguém como você
moça do campo,
alguém como alguma
virgem debutante,
alguêm como você
crioula da zona,
pobre alma ardente,
tão carente quanto
uma flor do deserto,
mesmo que eu não cante,
cante que estarei perto.
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Areia
a areia na greta,
na greta molhada,
de líquido quente,
do sexo ardente,
que produz essa gente,
essa gente mal paga.
a areia na greta,
na greta saciada,
de amor de repente,
do corpo carente,
que faz essa gente,
louca e desajeitada.
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Barco Pesqueiro
um pesqueiro vai partir ao norte,
gritos choros, lamentos…
ai de quem vai partir,
vai levar consigo saudades,
vai deixar do porto a vida,
guardada em corações distintos:
filhos, mulher, mãe e pai famintos;
vai controlar por meses, o peito,
vai irrigar com lágrimas, o rosto,
vai desnudar emoções contidas,
pra depois, talvez voltar.
um pesqueiro vai partir ao norte,
gritos, choros, lamentos…
ai de quem vai ficar,
vai durar pra sempre um dia,
vai ser trágica a cena de espera,
que talvez seja apenas quimera,
mas é a vida, é a vida, é a vida;
vai irrigar com lágrimas, a noite,
vai olhar pra sempre, o mar,
vai deixar a vida morrer,
para depois, talvez, de novo nascer.
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Os Olhos Negros e a Rosa
os olhos negros olhavam a rosa;
tinham treze anos de brilho;
e a rosa, ainda não desabrochara;
era manhã, menos da nove,
manhã de primavera,
das abelhas operárias;
a rosa estava semi-aberta;
e os olhos negros,
bem espertos,
tentavam observar, cada segundo,
a rosa desabrochando;
era manhã de primavera;
manhã de sol,
menos das nove;
me cativa cruelmente este fato:
e encontro da beleza e da dor;
antes da rosa abrir-se completamente,
os olhos negros,
de treze anos,
fecharam-se eternamente.
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Brado Revoltado
o meu peito guarda
um brado revoltado
pelos que morreram
nas batalhas trabalhistas
ou nos covis da repressão,
são homens em camisas de mangas,
e mulheres com desbotados vestidos;
e você ainda riem?
vocês, burgueses famintos,
que comem o pão
dessas mãos suadas,
ainda riem?
vocês, omissos nojentos,
que bebem o sangue
desses corpos mutilados,
ainda riem?
sim, vocês riem;
enquanto gordos assassinos
se escondem
por trás das cortinas do poder,
erguem as vozes com estranho cinismo
à condecorada guarda:
protejam a nossa pátria: brasil.
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Canto de Adeus
hoje sou cego
ao corpo teu que parte…
não pareço-me ontem,
ansiedade louca de beijar teus seios,
de tocar teus pêlos,
tão louco fui;
cheio de pensamentos breves;
tão louco fui,
louco e feliz;
da minha alma
sempre um sorriso longo à tua;
hoje, porém,
teu corpo parte
e minha alma é cega;
não sou feliz nem triste;
bêbo agora
à glória de não ser escravo.
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Ciranda do Pecado
segura em minha mão,
ciranda do pecado,
aqui te canto uma cantiga,
que irá aliviar tua alma
negra de solidão,
de palavras que te secam,
e contrariam teu corpo,
segura em minha mão,
ciranda louca do pecado,
vê o céu claro e azul,
vê a manhã delirante,
liberta-te mesmo tarde,
salva tua alma, mente mórbida,
faz tua própria salvação,
que deus:
deus morreu no rio;
faz tua própria salvação.
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Comédia Humana
por tão pouco se discute
quem tem a vida na mão,
quem a morte tem aos pés;
por tão pouco se quer saber
quem se faz porco,
qual porco se faz gente;
por tão pouco se ilustra
a alma bem-vista,
a bem-vista alma maldita;
por tão pouco se fala
dos bêbados esvaindo-se em pranto,
do pranto que não choram tantos;
por tão pouco se comenta:
- dos violentos;
- dos sedentos;
- dos terroristas;
- dos anarquistas…
por tão pouco se cruzam os braços,
e continua,
silenciosamente,
eterna e silenciosamente,
a dantesca comédia humana.
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Doce Garota
eu andava sem rumo,
mascando chicletes,
em liberdade vigiada;
vaguei por becos e avenidas,
infernos e madrugadas;
nada encontrava
que me desse gosto de voltar;
vagabundos me aceitavam
como um deles;
madames me queriam como brinquedo;
e eu nunca,
nunca me senti caminhando com alguém;
e agora,
nesse jardim sem flores,
me sinto contigo,
doce garota,
que adoça minha vida inteira.
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A Morte
Dona morte
recolheu a foice
e foi-se;
os tempos de ódio
e rancor
passaram no meu peito;
tenho uma flor;
tenho um sorriso;
um sorriso que nunca previ;
porém…
tenho um sorriso e…
tenho uma flor.
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Dor
o trem já vai partir;
são quatro horas de vida;
são tempos pra esquecer;
são tormentos que virão,
expressões no rosto
de dor;
de mágoa;
de solidão;
a revolta é um caminho certo;
a amargura dilacera;
e essa fera ruge;
dança;
grita;
a esperança morreu
na última estação;
agora espera…
só a morte…
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É Preciso
é preciso saber do mal
pra se ter consciência do bem;
é preciso penetrar o negro
pra se saber da luz;
é preciso descer o poço
pra se ver o céu;
é preciso sonhar
pra se desejar a vida;
é preciso viver
pra se amar;
é preciso doar-se;
é preciso querer-se;
é preciso amar;
é preciso amar.
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A Liberdade
a liberdade
não é negra e não é branca;
é incolor;
não tem credo,
não grana,
não precisa ter massa;
gera por si só;
a liberdade
não tem nome nem apelido;
não está longe nem perto;
ela está ou não;
a liberdade
não nasce nem morre,
ela apenas vive e habita;
a liberdade de nada precisa;
nada além da luz
que emana de dentro
pra fora de quem vive.
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Lua
lua,
todos te dizem pura,
só eu não;
és bela sim;
porém sem amor única;
eu que um dia
te consumi toda;
só que também vi
teu olhar dourado
sobre um cigano,
vi sobre um mendigo,
sobre um vagabundo,
e beijavas também
um assassino;
lua que é minha,
na minha solidão
é a rainha;
lua bela,
lua sapatão,
que beijavas Maria,
Rosana, e a Rosa
minha amada fugida;
lua, tu não me namoras,
o que desejas,
é fazer multidão
os meus olhos sozinhos.
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A Lua sem Poeta
o que seria da lua,
sem o poeta…
seria recalcada,
seria crua,
nua e sem berço,
virgem e sem verso;
posaria despida,
mas apenas para o mar,
não seria beijada,
não seria trepada,
porém ainda seria bela;
mesmo sem olhos de ver,
mesmo sem amor para crer;
contudo…
ainda seria bela.
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Maradona
foi assim:
saltou fora do ventre,
não viu a bola…
e chorou;
nasceu maradona;
menino de ouro,
sem adorno,
sem parafina no cabelo;
menino real,
louco talvez,
que amou;
que cheirou;
que chorou
e quase morreu;
porém, espíritos assim são de pedras,
não morrem,
sobrevivem para sempre;
deixando de legado,
tanta fúria e raça,
num sublime talento.
criada em 1994, após da armação da FIFA.
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Numa Só Marcha
todos numa só marcha;
carregados em ondas invisíveis;
das crianças meninas
às mulheres solitárias;
dos braços fortes
aos magros peitos doentios;
lembrar-me-ei agora,
dos ginásios da vida;
dos bares das zonas;
das favelas, dos burgueses,
dos escarros nas ruas;
dos adeuses…
dos adeuses que não foram ditos;
das palavras de bocas malditas;
das igrejas, do murmúrio da fome;
dos homens do campo;
dos homens da guerra;
lembrar-me-ei de você:
que passou por mim com um beijo
e não disse a palavra que ainda me falta;
fui cego à marcha constante e eterna,
porém levanto agora o olhar
para um lampejo de luz.
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O Passado Presente
não machuque
a quem te deu a mão,
porque bem sei, outras mãos virão,
mas o calor que a tua ora ostenta
não foi o fogo da lareira que te deu,
vai atrás, alma bendita que saberás,
o calor de tua máo é o do primeiro coração.
não machuque
a quem te fez sorrir,
porque passa o dia e passa a noite,
passa o ator e o palhaço,
que teu sorriso seja sempre alma presente,
mas, contudo, ser vivente,
teu sorriso não tem cor permanente.
não machuque
a quem te proporcionou um orgasmo,
porque mesmo que o tempo mude
ainda te restará um sêmen
que não aceitará outro colo,
e com a volta dos ventos
o induzirá ao prazer primeiro.
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Se o Amor Fosse Bonzinho
ah quem dera,
se o amor fosse bonzinho,
eu não seria tão só
correndo em busca de carinho,
nas tetas de uma vaca cega.
não seria o mundo tão triste,
num desvario, numa febre infinda,
sangrando lágrimas em dissabores,
a procura de uma morte leve.
não seria tu própria, morena,
tão serena, tão amena,
razão de tanto desgosto,
sem culpa me matando,
sem culpa, mas a teu gosto.
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Rosinha
Rosinha,
nome de virgem de roça;
rosinha no campo…
flor pura, menina bela,
menina feliz, menina flor.
Rosinha no campo
era toda natureza;
Rosinha era vida, era mato;
Rosinha era tudo:
amor, sonho, paixão…
Rosinha no campo:
nua, livre, gazela…
moça bonita, cheiro de amor,
Rosinha do sexo ardente,
Rosinha, menina bonita.
Rosinha fugiu do campo;
a roça chorou;
foi-se Rosinha, foi-se o amor;
do campo foi-se:
a menina: bela flor.
Rosinha na cidade…
cheiro de quarto sujo;
cheiro de álcool, cheiro de fumo.
Rosinha feia! feia!
Rosinha da noite escura.
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Meiga Senhorita
caminhando feito louco
contra o tempo;
não me arrebento nas pedras da rua
porque algo ainda me segura;
a mente vai a mil,
transforma um segundo
numa estória sonhada,
talvez eu queira ir,
pois indo posso voltar;
e se eu ficar
talvez espante o encanto
e transforme este lugar
numa cidade de pedras distante…
de repente, perplexo,
esvai-se todos os pensamentos,
pois algo muito forte
ocupa toda a minha alma…
senhorita…
como desejo um beijo teu,
como desejo tocar teu corpo,
porém, me assusta mil vezes,
os braços em adeuses,
mas por ti, senhorita,
não fugirei ao risco.
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Tímido Olhar
deixa eu olhar,
num longo olhar, a terra…
pois falam-se muito do sofrimento
e da dor;
dizem-me muito do mal;
porém, o que de fato farei?
se novamente tereu eu de me recolher?
terei eu que dormir?
não, melhor que esqueça;
talvez à noite
não me sinta bem.
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Você
não gostaria de te ver
num domingo de ramos;
me avise quando for;
você não se parece
com a minha velha tia,
nem com aquela garotinha
de olhar indiferente;
você é a nova flor;
a flor de hoje;
brusca ruptura
com o mundo antigo.
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